Medalha Milagrosa

A mais bela oração!

Evangelho

11 "Já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, e Eu vou para Ti. Pai Santo, guarda em Teu nome aqueles que Me deste para que sejam um, assim como Nós. 12 Quando Eu estava com eles, os guardava em Teu nome. Conservei os que Me deste; nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, cumprindo-se a Escritura. 13 Mas agora vou para Ti e digo estas coisas, estando ainda no mundo, para que eles tenham em Si mesmos a plenitude da Minha alegria. 14 Dei-lhes a Tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. 15 Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. 16 Eles não são do mundo, como Eu também não sou do mundo. 17 Santifica-os na verdade. A Tua palavra é a verdade. 18 Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 19 Por eles Eu santifico-Me a Mim mesmo, para que também sejam santificados na verdade" (Jo 17, 11-19).

Mais grandiosa que todo o universo, insuperável até pelos próprios Anjos, e tão infinita e eterna quanto o próprio Deus, é a Oração Sacerdotal de Cristo Jesus. O amor do qual ela floresce, os pedidos nela formulados e as divinas forças por ela ativadas, são de um teor superior a toda a natureza criada.

MONS JOAO CLA_3.jpgMons. João Clá Dias, EP

I - A oração de Jesus

"Naqueles dias Jesus retirou-Se para o monte a orar, e passou toda a noite em oração a Deus" (Lc 6, 12).

Não conseguimos reter os sentimentos de veneração, de enlevo e até mesmo de adoração, ao nos depararmos, na leitura dos Evangelhos, com as atitudes de respeito, submissão e obediência de Jesus em relação ao Pai. Tocam-nos de modo especial Suas orações realizadas em diversas circunstâncias (cf. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; 9, 18; 11, 1; 22, 41-44; Jo 17, 1-26). Tanto mais que, orando a partir de Sua natureza humana, abre-nos um caminho transitável também por nós, apesar de frágeis criaturas que somos.

Cristo orava enquanto homem, não enquanto Deus

Sim, de fato, a oração de Jesus florescia de Sua natureza humana, pois enquanto à divina, nada haveria para pedir ao Pai, uma vez que ambos têm idêntica onipotência e natureza. Quem nos ensina com clareza sobre esse particular, é São Tomás de Aquino: "A oração é uma exposição da nossa própria vontade diante de Deus para que Ele a realize. Se, pois, em Cristo houvesse uma única vontade - ou seja, a vontade divina - não Lhe competiria de modo algum orar, porque a vontade divina realiza por si mesma aquilo que deseja, como diz o Salmo 134: ‘O Senhor fez tudo aquilo que quis'. Mas em Cristo há uma vontade divina e uma vontade humana; e a vontade humana não é capaz de realizar por si mesma o que quer, a não ser graças ao poder divino. Por isso convinha a Cristo orar, por ser homem e por ter uma vontade humana".1

À primeira vista, esse fato poderia causar certa perplexidade, pois pareceria que Jesus jamais necessitasse pedir nada a

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"As tentações de Cristo" por Fra Angélico
(detalhe) - Museu de São Marcos, Florença
(Itália)                   Gustavo Kralj
ninguém. Explica-nos, porém, o Doutor Angélico: "Cristo podia fazer tudo o que queria enquanto Deus, não enquanto homem. Porque, como foi explicado acima, enquanto homem Ele não possuía a onipotência. E, embora fosse ao mesmo tempo Deus e homem, quis apresentar a oração ao Pai, não como se fosse impotente, mas para nos instruir".2

Utilidade e necessidade de nossas orações

Mas Ele rezava não só para nos ensinar e nos servir de modelo, como também para atender aos desígnios do próprio Deus: "Entre as coisas que Cristo sabia que iriam acontecer, estavam aquelas que haveriam de acontecer graças à sua oração. Não havia, pois, inconveniente em que as pedisse a Deus".3

Admira-nos a precisão de linguagem, como a de conceitos, do nosso Santo Doutor, auxiliando-nos a compreender a utilidade e a necessidade das nossas orações. Não é raro encontrar quem afirme ser incoerência pedir algo a Deus pelo fato de ser Ele imutável. A vencer essa objeção, nos ajuda o mesmo Doutor:

"Deus não exclui as outras causas; pelo contrário, ordena-as para impor às coisas a ordem por Ele estabelecida. Assim, as causas segundas não se opõem à Providência, mas executam seus efeitos. As orações são, pois, eficazes perante o Senhor e não derrogam a imutável ordem da Divina Providência, porque nessa ordem está incluído o conceder-se uma coisa a quem a pede. Logo, dizer que não devemos rezar para conseguir algo de Deus porque a ordem de sua Providência é imutável, equivaleria a dizer que não devemos andar para chegar a algum lugar, ou não devemos comer para nos alimentar, o que é absurdo".4

Obteve Jesus tudo quanto pediu na oração?

Outra dificuldade que surge em nosso espírito - após lermos em São João: "Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que Me ouves sempre" (Jo 11, 41-42) - é constatarmos o fato de o Pai não ter atendido alguma súplica de Jesus, como se deu com a oração proferida no Horto das Oliveiras: "Pai, se for possível, afaste de Mim esse cálice" (Mt 26, 39).

Quem mais uma vez nos auxilia a melhor desfazer essa aparente contradição é São Tomás de Aquino:

"Já foi dito que a oração é, em certo sentido, intérprete da vontade humana. Considera-se atendida a oração de alguém quando se realiza a sua vontade. Ora, a vontade como tal do homem é a vontade racional, porque queremos de maneira absoluta aquilo que queremos por deliberação da razão. Pelo contrário, aquilo que queremos por um movimento da sensualidade, ou ainda por um movimento da vontade espontânea que emana da natureza, não o queremos de maneira absoluta, mas relativa, isto é, se à deliberação da razão não se opõe nenhum obstáculo. Eis porque tal vontade deveria chamar- se melhor veleidade do que vontade absoluta, porque o homem quereria tal coisa se nada se opusesse a ela.

"Segundo sua vontade racional, Cristo não quis outra coisa a não ser o que sabia que o Pai queria. Por isso, toda vontade absoluta de Cristo, mesmo a humana, se realizou, porque estava em conformidade com Deus. E, portanto, todas as suas orações foram atendidas. É também neste sentido que são escutadas as orações das outras pessoas, na medida em que expressam desejos que estão em conformidade com Deus".5

Com base nessas considerações, o Santo Doutor nos explica que, na Oração do Horto das Oliveiras, Jesus manifestou os desejos de Sua sensibilidade natural diante da trágica dor que se aproximava, porém, não implorou com vontade absoluta que fosse retirado o cálice da Sua Paixão.6

A insuperável Oração Sacerdotal de Cristo Jesus

Após essas considerações, encontramo- nos melhor preparados para acompanhar os trechos do Evangelho de São João, recolhidos pela Liturgia deste VI Domingo da Páscoa. Eles fazem parte do capítulo 17, o qual costuma ser denominado como a Oração Sacerdotal de Cristo Jesus. Ela é mais grandiosa que todo o universo, insuperável até pelos próprios Anjos, e tão infinita e eterna quanto o próprio Deus, a Quem é dirigida.

O amor do qual ela floresce, os pedidos nela formulados, as divinas forças por ela ativadas, são de um teor superior a toda a natureza criada. Ela nos permite provar uma gota do preciosíssimo bálsamo contido nas profundezas do Sagrado Coração de Jesus. Sim, o primeiro e mais fervoroso devoto desse Divino Coração, depois de ter recostado sua cabeça junto àquela Fornalha Ardente de Caridade, não deixou de gravar em seu próprio coração as palavras que talvez constituíssem a mais completa e alcandorada síntese de sua visualização do Redentor.

Recolheu com entranhada unção o oferecimento do holocausto da vida de Jesus, proferido com palavras sagradas e penetradas de emoção. Trata-se de uma das mais elevadas expressões do múnus de mediador junto ao Pai, em benefício não só dos Apóstolos, "mas também por aqueles que hão de crer" (Jo 17, 20).

O desejo de estender a Sua vida divina às criaturas

Sendo Ele o único Senhor e Mestre, manifesta nessa oração Seu empenho em comunicar "a vida eterna a todos" que Lhe foram entregues pelo Pai (Jo 17, 2). Implora que a vontade divina se realize em plenitude não só nEle, mas também nos Apóstolos. Não deixa de incluir, nessa petição, aqueles que de futuro viriam: "para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós" (Jo 17, 21).

É comovedor constatar, nas palavras de Cristo, o quanto é eminentemente difusivo o Bem, pois é manifesto o desejo de estender Sua vida divina aos seres inteligentes, criados à Sua imagem e semelhança, e, em consequência, ser por eles glorificado. E, para tal, "chegou a hora!".

Jesus congregou os eleitos pelo Pai, retirando-os "do meio do mundo" (Jo 17, 6), ensinando-lhes tudo quanto poderiam conhecer sobre Ele e o Pai. Daí rogar por eles com oração infalível (cf. Jo 17, 7-10).

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Na oração do Horto das Oliveiras, Jesus  manifestou  os
desejos de Sua sensibilidade natural  diante  da   trágica
dor que se aproximava, porém, não implorou com vontade
absoluta que fosse retirado o cálice de Sua Paixão.
"Oração no Horto das Oliveiras"   -    Museu Unterlinden,
Colmar, França                       Sérgio Hollmann
Esses são os princípios que constituem, por assim dizer, a moldura ao redor dos versículos escolhidos para o Evangelho da presente Liturgia.

II - "Para que sejam um, assim como Nós"

11 "Já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, e Eu vou para Ti. Pai Santo, guarda em Teu nome aqueles que Me deste para que sejam um, assim como Nós".

A essência dessa petição de Jesus encontra-se na importância que Ele atribui à união entre os Apóstolos, como também entre todos os mem bros da Igreja. Hoje, depois de quase vinte séculos de desenvolvimento dessa instituição divina, entendemos melhor o conteúdo dessa união dos espíritos, por meio da fé; dos corações, através da caridade; e do culto, em função das regras de uma mesma disciplina. Ela diz respeito ao Corpo Místico de Cristo, no qual tudo se reduz à caridade dos fiéis num só coração, numa só alma e num só corpo, tendo Cristo como cabeça.

A união entre os cristãos se assemelha à da Santíssima Trindade

A arquetipia máxima dessa unidade encontra-se na Santíssima Trindade, ou seja, três Pessoas numa mesma substância e natureza, possuindo idêntica sabedoria e poder, e, por conseguinte, as mesmas operações e afeições. O primeiro objetivo de Jesus é obter do Pai essa união para os Apóstolos e para toda a Santa Igreja, o mais possível semelhante ao seu analogado primário, ou seja, àquela existente no seio da própria Divindade. É o que se verificaria pouco tempo depois: "A multidão dos que criam tinha um só coração e uma só alma" (At 4, 32).

Para bem degustar este versículo, percorramos estas belas palavras de Bossuet: "Rogo-Vos, Meu Pai, que eles sejam um: que neles não se aloje o espírito de dissensão, inveja, ciúme, vingança, animosidade, suspeita e desconfiança. ‘Que eles sejam um como Nós'. Não basta serem um, como o Pai e o Filho, na natureza que lhes é comum, da mesma maneira que o Pai e o Filho são um na natureza comum a ambos, mas que eles tenham, como Nós, a mesma vontade, a mesma cogitação, o mesmo amor: ‘que eles sejam, pois, um como Nós'. [...] "‘

Que eles sejam um como nós', unindo-se com toda cordialidade e verdade, não apenas por palavras, mas por obras e em virtude de uma sincera caridade. Que sejam de fato um, inseparavelmente um. Que eles manifestem e vejam em si mesmos, na eterna perseverança de sua união, uma imagem da eterna e incompreensível unidade pela qual o Pai e o Filho sendo um, numa mesma e simples natureza individual, têm uma só e simples inteligência, com um só e simples amor, e por tudo isso são um só Deus: assim, que eles formem um só corpo, uma só alma, um só Jesus Cristo. Porque se o ser um, de uma perfeita unidade, é algo reservado a Deus e às pessoas divinas, convém-nos, a nós feitos à sua imagem, ser um: e esta é a graça que Jesus Cristo pede para nós".7

Jesus garante com sua oração a proteção do Pai

Até aquele momento Jesus havia cuidado deles com especial esmero e afeto; indo, era necessário não interromper essa atitude paternal, para que não caíssem na orfandade. E tal qual comenta Maldonado, o próprio Jesus já lhes prometera assisti-los sempre, mas uma oração tão extremada e oficial, conferia-lhes maior segurança.8

12 "Quando Eu estava com eles, os guardava em Teu nome. Conservei os que Me deste; nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, cumprindose a Escritura".

Com inteira clareza de expressão, externa Jesus toda a ternura por Ele dispensada aos Apóstolos, ao longo dos três

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Judas não é do  número  daqueles  a  respeito
dos quais disse Jesus: "Eles eram Teus e  Tu
Mos deste". Porque estas palavras se referiam
àqueles  que estavam presentes quando  Ele
rezava.
     "O beijo de Judas" - Scala Santa - Roma
                                               Timoty Ring
anos de convívio e formação, instruindo-os, preservando-os do mal, etc. Todo esse Seu esforço era uma forte garantia de que, pelo poder infalível de Sua oração, continuaria o Pai a agir na mesma linha, pois o Unigênito nada fizera senão em inteira concordância com Ele.

"Nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição"

Sobre a figura do traidor, ouçamos uma vez mais o grande Bossuet:

"Pode-se dizer, porém, que a oração de Jesus Cristo não teve resultado algum para esse traidor? Se ele jamais tivesse acreditado, teria dito em seu desespero: ‘Pequei, entregando o sangue inocente' e teria devolvido aos judeus o preço de sua iniquidade? Parece, pois, que pelo menos durante algum tempo ele havia acreditado de boa fé; e que, tendo-se despertado um resto de sua fé inicial, ele, em lugar de aproveitarse dela para sua salvação, usou-a para sua perdição. [...]

"De qualquer modo, ousarei afirmar que ele não é do número daqueles a respeito dos quais disse Jesus: ‘Eles eram Teus e Tu Mos deste'. Porque estas palavras se referiam àqueles que estavam ali presentes quando Ele rezava, que haviam guardado Sua palavra, que criam, em cuja Fé Ele era glorificado.[...]

"Não digo, entretanto, que Judas não tenha sido de algum modo dado a Jesus Cristo, mas sim que há uma certa maneira particular, segundo a qual ninguém pertence ao Pai, e ninguém é dado ao Filho, a não ser os que guardam Sua palavra, nos quais Ele é eternamente glorificado. E é dessa maneira secreta e particular que Jesus fala aqui. Roguemos-Lhe, portanto, a graça de Lhe pertencermos dessa maneira. Senhor, que eu seja daqueles que conservam Vossa palavra até o fim, para ser daqueles nos quais sereis glorificado por toda a eternidade".9

Confortados por uma alegria celestial, inefável e divina

13 "Mas agora vou para Ti e digo estas coisas, estando ainda no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da Minha alegria".

Por um conhecimento jamais equivocado, Jesus sabe quão próxima está Sua partida, e daí a formulação de Seu pedido.

Quanto à alegria, trata-se evidentemente daquela que o mundo não conhece e por isso não pode oferecer. É a alegria celestial, inefável e divina que confortou os próprios Apóstolos, as virgens, os confessores e os mártires, ao longo de seus tormentos e na morte, os penitentes nos jejuns e austeridades. Maldonado sintetiza muito bem a oração do Senhor: "Fazei, Pai, com que, estando Eu ausente, eles se rejubilem com Vossa ajuda mais do que agora com Minha presença".10

III - "O mundo os odiou"

14 "Dei-lhes a Tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também Eu não sou do mundo".

Pela própria formulação de Jesus, percebe-se o quanto o espírito do mundo é feito de mentira e, portanto, o oposto do Espírito Santo, conforme se comprova por esta outra passagem: "Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro Paráclito, para que fique eternamente convosco, o Espírito de verdade , a Quem o mundo não pode receber, porque não O vê, nem O conhece; mas vós O conheceis, porque habita convosco e está em vós" (Jo 14, 16-17).

A amizade deste mundo é inimiga de Deus

O espírito do mundo vive no erro e por isso não conhece os dons de Deus, como afirma São Paulo aos Coríntios: "Ora nós não recebemos o espírito deste mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecermos as coisas que por Deus nos foram dadas" (I Cor 2, 12).

Por esse motivo, o mundo vive no erro e toma a verdade por mentira, o bem por desgraça, a autêntica riqueza por pobreza, a morte por vida, e vice-versa. Por isso não se deve amar o mundo, como aconselha São Tiago: "Não sabeis que a amizade deste mundo é inimiga de Deus? Todo aquele que quer ser amigo deste mundo torna-se inimigo de Deus" (Tg 4, 4).

Deus quis servir-Se de homens simples para anunciar o Evangelho

A pseudo sabedoria do mundo é loucura, pois não alcança entender as verdades reveladas, nem as da salvação. Deus não quis utilizar-Se da pretensa sabedoria do mundo para anunciar o Evangelho, mas, pelo contrário, lançou mão de homens simples para tal, conforme nos anuncia São Paulo:

"Está escrito: ‘Destruirei a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos prudentes'. Onde está o sábio? Onde o homem instruído? Onde o investigador deste mundo? Porventura não tornou Deus em loucura a sabedoria deste mundo?

"De fato, já que o mundo pela sua própria sabedoria não conheceu a Deus na Sua divina sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes por meio da loucura da pregação. Enquanto os judeus exigem milagres e os gregos buscam a sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, mas, para os que são chamados, quer dos judeus, quer dos gregos, é Cristo força de Deus e sabedoria de Deus; porque o que é loucura em Deus é mais sábio que os homens, e o que é fraqueza em Deus é mais forte que os homens.

"Considerai, pois, irmãos, a vossa vocação: entre vós não há nem muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres; mas as coisas loucas, segundo o mundo, escolheu-as Deus para confundir os sábios e as coisas fracas, segundo o mundo, escolheu-as Deus para confundir os fortes; Deus escolheu as coisas vis e desprezíveis segundo o mundo, e aquelas que não são nada, para destruir as que são, para que nenhuma criatura se glorie diante dEle" (I Cor 1, 19-29).

O mundo está cheio de perigos e ciladas

Não poucas vezes a "sabedoria" do mundo se opõe às verdades reveladas, aos dogmas e à própria moral, por isso é maléfica a influência do mundo, como assevera São Leão Magno: "O mundo inteiro está cheio de perigos e ciladas: as paixões excitam, a atração dos prazeres nos arma emboscadas, os lucros lisonjeiam, os prejuízos abatem e as línguas são amargas"...11

O ódio do mundo naqueles tempos, contra os Apóstolos, atingiu graus inimagináveis. Não foi menos satânico o ódio herético que mais tarde se levantou contra os verdadeiros cristãos. Não nos iludamos a respeito da existência desse ódio ainda no mundo de hoje...

Não nos é lícito admitir os erros do mundo

15 "Não peço que os tireis do mundo, mas que os guardes do mal. 16 Eles não são do mundo, como Eu também não sou do mundo".

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"Eu me santifico por eles, para que eles sejam santificados na
                                            verdade"
Crucifixo que se venera na Casa Turris Eburnea dos Arautos do
                                         Evangelho
Muito importante focalizarmos este versículo, pois, em qualquer parte onde nos encontremos, estamos no mundo. Apesar de nos expormos menos quando retirados na solidão, seus males e erros não deixam de penetrar nos mais religiosos ambientes. Daí ser necessário conhecermos a fundo a verdade subjacente neste versículo, pois é tão variado o mal que há no mundo e, ao mesmo tempo, se apresenta ele de tantas maneiras diferentes e insinuantes, que inúmeras têm sido suas vítimas. Jesus pede pelos Apóstolos porque este mundo é mau, e eles não pertencem ao mundo. Por terem aderido à palavra do Pai, transmitida pelo Filho, passaram a ser membros da família divina.

Jesus repete afirmações feitas anteriormente para frisar o quanto devemos rejeitar as máximas, inclinações, paixões, interesses, afetos, etc., do mundo; ou seja, jamais será lícito admitir seus erros. Eis mais uma razão pela qual nos ensinou Ele a rezar: "mas livrai-nos do mal".

IV - "Santifica-os na verdade"

Fora da Igreja não há santidade

17 "Santifica-os na verdade. A Tua palavra é a verdade".

A heresia, como também a irreligião, são trabalhadas na mentira e podem ser consideradas como analogadas primárias de uma falsa consciência, e até mesmo da hipocrisia. Todas essas posturas erradas se opõem à mencionada santificação na verdade, como consta neste versículo.

Não têm o menor fundamento na realidade moral a retidão, a bondade, a exteriorização de fervor, às vezes até de santidade, que a impiedade ou a heresia procura apresentar a seu próprio respeito. A santidade na verdade, o ser inteiramente de Deus "por meio da Verdade", deve ter por fundamento a Religião e a Fé. Não conhece a palavra de Deus quem não recebe, ou não aceita, da Santa Igreja, sua adequada e infalível explicação. Fora da Igreja não haverá senão um simulacro de santidade.

Não basta ostentar uma santidade feita de meras exterioridades, pois, se as aparências forem simples máscaras de um interior em desordem, tudo não passará de hipocrisia.

Pelo Batismo, participamos da divina missão de Cristo

18 "Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo".

Não só para os Apóstolos é necessária a verdadeira santidade: ela o é para todos nós! Como filhos adotivos de Deus pelo Batismo, temos parte nessa divina missão de apostolado junto aos outros, e para tal é-nos indispensável a santidade.

Se nos dispuséssemos - cada qual em suas funções e estado - a caminhar para essa verdadeira santidade, que rápida transformação haveria em toda a sociedade e até mesmo no interior da própria Igreja! Os filhos seriam santificados pelos pais; os discípulos, pelos professores; os parentes, por seus mais próximos, etc.

Cristo nos santifica com Seu sacrifício

19 "Por eles Eu santifico-Me a Mim mesmo, para que também sejam santificados na verdade".

Anuncia aqui o Redentor uma vez mais - agora em termos um tanto velados - Sua entrega à morte por nós, para assim sermos inteiramente santificados.

De modo belo e didático, comenta Maldonado este versículo: "É como se Ele dissesse: ‘Se os ministros do Evangelho devessem iniciar-se do mesmo modo que os da Lei, precisariam santificar-se mediante algum sacrifício. Mas não há motivo para fazer semelhante coisa, para oferecer vítima alguma. Fá-lo-ei Eu em seu favor. Eu, e não outra vítima, Me santificarei por eles e em lugar deles. Ficarão assim muito melhor e mais santificados do que se oferecessem inumeráveis vítimas à maneira dos antigos'. Esse é o sentido da frase ‘por eles Eu santifico-Me a Mim mesmo', etc. Não sei se esse sentido será o mais adequado, pois essa interpretação abre lugar para uma dúvida: Se, como diz Cristo, Ele próprio vai santificar-Se pelos discípulos, como então pede a Seu Pai para santificá- los? Pois Ele realmente diz que os santificará, suprindo com Seu verdadeiro sacrifício as vítimas legais e as demais cerimônias usadas pelos antigos sacerdotes em semelhantes casos. Pede, porém, a Seu Pai que ‘os santifique na verdade', que lhes envie o ‘Espírito de Santificação' que Cris to lhes mereceu mediante Seu sacrifício. Dessa maneira, o Pai e o Filho repartem-Se entre Si a santificação dos discípulos".12

Unamo-nos a Ele na entrega que fez de Si próprio

Não temos nós a felicidade dos Apóstolos que, a exceção de São João - o qual foi confessor -, foram mártires e, portanto, também morreram como vítimas. Entretanto, podemos unir-nos a Nosso Senhor na entrega que Ele fez de Si próprio e, como consequência, seremos santificados em verdade, conforme nos diz Bossuet: "Entremos pois, com Jesus Cristo, nesse espírito de vítima. Se Ele Se santifica e Se oferece por nós, é necessário que nos ofereçamos com Ele. Seremos assim santificados em verdade, e Jesus Cristo nos será dado por Deus para ser nossa sabedoria, nossa justiça, nossa santificação e nossa redenção. E o resultado desse tão grande mistério é que quem se glorie, não se glorie em si mesmo, mas somente em Jesus Cristo, no qual ele tudo possui (cf. I Cor 1, 30-31). É, pois, isto que Jesus Cristo pedia por nós, ao dizer: ‘Eu Me santifico por eles, para que eles sejam santificados na verdade. Não cabe acréscimo algum a esse comentário de São Paulo, a não ser uma profunda atenção a um tão grande mistério".13

1 AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q. 21, a. 1, Resp.
2 Idem, ad 1.
3 Idem, ad 2.
4 AQUINO, São Tomás de. Summa contra Gentiles l. III, c. 95, n. 15.
5 AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q. 21, a. 4.
6 Cf. idem, ad 1.
7 BOSSUET, Jácques-Bénigne. OEuvres Choisies de Bossuet. Versailles: Lebel, 1821, v. III, p. 395-397.
8 Cf. MALDONADO, SJ, Pe. Juan de.
Comentarios a los cuatro Evangelios - III Evangelio de San Juan. Madrid: BAC, 1954, p. 910-911.
9 BOSSUET, Op. cit., p. 400-402.
10 MALDONADO, SJ, Op. cit., p. 914.
11 LEO MAGNUS, Sanctus. Sermo XXVI - In Nativitate Domini VI.
12 MALDONADO, SJ, Op. cit., p. 922.
13 BOSSUET, Op. cit., p. 417.

(Revista Arautos do Evangelho, Maio/2009, n. 89, p. 12 à 19)

 

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